segunda-feira, 3 de julho de 2017

SEIS DANÇAS DESCONEXAS PARA UMA SEXTA DÉCADA





I – COR DO TEMPO

A distorção difusa da luz no caos
do tempo, não sangra em sépia
apenas essas velhas fotografias
que teimam equilibrar-se na cal

da memória, inventa o passado,
falsos fatos em fuga resgatam
tantas antigas estátuas de sal,
tentando escapar de Sodoma.

Estes são os meus escombros:
nenhum feito de paisagem real,
mas de tudo que sonhei, velado
por um tempo tornado sombra,

na tênue aquarela deste ocaso:
porém meu sangue ainda tinge
as horas, hemorragia da esfinge
que sou e jamais me abandonará.

Apenas o oculto em cores diluídas
em cínicos suaves tons cotidianos.

II

AS CHAVES

Guardo no bolso do imaginado
a que foi minha primeira chave.
Só depois eu vi que nada abria
(aliás, sequer uma porta havia).

Desde aquela, tantas eu tive
quase todas as tenho perdido,
e mais de uma eu vi escorrer
em algum bueiro do passado.

Mudei-me de rua, casa, cidade,
mas as antigas chaves ficavam,
sempre esquecido de tirá-las
preguiçoso ante tantas portas.

Gritavam no bolso a inutilidade,
mas as guardava na esperança
quase silenciosa de outra tranca.
Hoje descubro: todas são inúteis,

nunca houve chaves, nem portas,
ainda assim guardo o gosto do aço
para me lembrar o peso de trazer
todo metal do tempo nos braços

III

ESPASMO

Danço ainda um penúltimo minueto
antes daquele com a terrível tísica.

Ela sabe que me vencerá. Sua voz
de soprano cantará a derradeira ária

da ópera inacabada. Olhos vidrados
as pernas e as mãos postas ao vento,

A pele nua e a carne opaca no último
“pas de deux” entre gestos violentos.

Breve, serei apenas o gosto de sangue
de outro espasmo da hemoptise do tempo




IV

UM MENINO ACORDA

Um menino dorme sob meu olhar mudo,
ao seu lado um vulto espreita, o mundo?
Talvez seja só minha vida, hoje estreita.

Dorme, filho, que estou muito cansado
e teu sono guarda uns poucos sonhos,
esses raros sonhos que ainda restam

rarefeitos nas madrugadas em claro.
Não acorde ainda, menino, não agora,
as suas pernas guardam velozes a vida,

porém não tão cedo, é que não lhe convém
a imagem imprópria de um pai que chora.
Mas sua vida, inquieta, chama e me ignora.

Está bem, vai, acorda e calce as chuteiras,
que meus olhos têm urgência de seu corpo,
pois sei que somente em um círculo perfeito

De seus pés desenhando velozes a poesia
de uma bola, esta a rima que resta dos dias
o penúltimo sonho que me colore as horas.

V

QUINTA DANÇA

1

Seriam seis, sei, seis seriam as danças
ainda me faltam duas, as mais difíceis:
porém como dançar sob este constante
                                               cortante silêncio?

2

Poderiam ser seis, sete, dez milhões de danças
tantas que minha perna retesaria em câimbras
os músculos tensos, cordas da viola da gamba
de um coração que sangra retalhado em postas.

Mas é melhor parar de dançar em ritmos imaginários,
diz a voz que aprendi a ouvir, isso é desafiar o tempo,
cedo te ensinei inútil afrontar deuses em movimento,
ou se tornarão a tormenta de seu inevitável naufrágio.

VI

A SERPENTE

“Left to herself, the serpent now began
To change; her elfin blood in madness ran,
Her mouth foam’d, and the grass, therewith besprent,
Wither’d at dew so sweet and virulent”

John Keats – Lamia

Abandonada nas agruras de sua metamorfose,
o sangue de duende da serpente escorre da loucura,
sua boca espuma sobre a grama, espalha-se ao vento
murcha o verde, um orvalho tão doce quanto virulento

John Keats –Lâmia

1


Quando o tempo não nascera em mim
e eu ainda não acreditava nas tardes,
imaginava algumas idades improváveis
(eu as achava impossíveis, na verdade)

Hoje, por exemplo, me descubro por acaso
na tarde obscena de um espelho covarde
que se despede e me despe sem alarde.
Eu, nu e só, ante a luz difusa deste ocaso,

existiria ainda alguma manhã possível?
Nesta hora do dia, de Lâmia, a serpente
mítica de Keats, restou apenas a víbora,
pois a mulher que a habitava, de repente

caiu morta. Todos os mitos estão mortos,
não há mito possível depois do meio dia,
há muito já sepultamos as antigas utopias,
sem esperanças recolhemos seus corpos.

2

Depois do meio-dia, só as manhãs existem
porque as noites são longas e os dias infinitos.
Contamos os passos do demo na madrugada
que se o sono é pouco, muitas são suas patas

Só restou do tempo esta pequena ampulheta
envolvida pelo amor de uma serpente medonha,
que no lugar da areia escorre apenas peçonha
(e corre veloz, rarefeita areia, rarefeito tempo).

O céu escurece dos espectros dos que amei
e hoje estão numa tarde inexistente, quisera
crer e talvez saber rezar, mas a esta hora
nesta tarde sem memória, a morte é apenas

uma realidade que insiste em ser em mim.
Mas a visão mais trágica que aflora da tarde
é descobrir por baixo da nudez da serpente
descarnada: sou eu que me dispo no poente

desencarnado de qualquer esperança banal,
sem deus ou mito que me resgate da noite
em mim é que habita inteiro meu próprio mal,
Lâmia sou eu, no fumo desta tarde em chamas

Que se dissipa cruel na velocidade do tempo,
na imagem sépia da solidão de quem não crê,
a mesma solidão desesperada dos que tateiam
nos livros o lampejo disso que chamam Homem

O que nos faz cada vez mais sós sob a tarde,
cada vez mais longe dos homens cotidianos.
Muito depois descobrimos: não buscávamos
o Homem, mas nossa solidão nas montanhas

Foi então que vi aflorar do ventre da serpente
sons do riso de escárnio dos que me odiaram,
apenas eles já não gargalham no eco do tempo,
só um silêncio negro lhes escorre entre dentes.

Foram eles que moldaram este barro que sou,
seco, a carcaça quebradiça e falsamente frágil
da cerâmica que eu vesti no meio daquela tarde.
Do barro do ódio que o oleiro moldou a moringa

que matou minha sede nos desertos dos desprezos
e no desespero dos exílios, antes de me habituar
à solidão cultivada dos que caminham em silêncio.
Todos moldaram o barro onde desenho palavras

Pois do barro ao pó serei, e do pó ao nada, nada
mais que o retorno ao silêncio que me antecedeu
(a única esperança é que serei o húmus da terra,
a ceia que um dia servirei a um pasto de vermes).

3

(PERMANÊNCIA)

Poucos me ouvem na luz desta tarde que maravilha,
são os que hoje me tocam e forjam em minha pele
outra forma de mim, moldada de carne e tempo
me tingem de esperança de outros ventos e ilhas

Na aquarela luminosa da tarde dissolvida nas cores
de horizontes ocasionais, o beijo da minha carne
me protege do ocaso, e canta um coro de tenores
das vésperas da liturgia sagrada de ser-me três.

Por nós ainda sopra em mim outro canto vespertino,
por um menino voltaram no eco os sinos das manhãs,
pois com a sua mãe firmei, naquele selo de sangue,
um pacto com a esperança de outro rumo e destino.

Por ele saberei colher os frutos de outras manhãs
e de algum poema sem poentes, e lhe prometo, filho:
                            
                                                Por você eu ainda fico.



terça-feira, 30 de maio de 2017

LAGO REVISITADO (Um estranho poema de amor)

              Fazenda Santa Bárbara, fevereiro de 2017
              
                                         Para Elizabeth e Gabriel


I


Pouco mais que paisagens, somos

tantos mares que nos acovardaram.

Entre as margens da pedra poente,

a dor da miragem perdida no peito.

E esse lago, somos quase acidente.



Urgente calar todas as paisagens,

esquecer o que um dia me fizeram

e cegar as miragens que secretam,

essas imagens do que fui refletidas

na densidade das horas. E do lago.



Não falo do passado, que não existe,

o destecemos num diuturno devaneio

de reflexos imaginados, mas persiste

no borrão da vergonha, no que fomos

e ocultamos entre realidade e desejo.



Na fantasia recomposta no bordado

dos mitos particulares, não vemos

o remendo daquele ponto impreciso

onde a tessitura do real rompeu-se,

mentirosa costura de nós mesmos.



Trilhamos escombros que restaram,

ruínas destroçadas de tantos rumos,

derrotas decompostas em húmus,

o que fomos, trilhas úmidas de lama

pisando as sombras do futuro perdido.



Era esse o lago! Preciso olhar-me ali

no lago onde era proibido banhar-me.

Aprendiz do “não” marcado na carne,

e desde então tudo me foi vedado:

“Não. É proibido mergulhar no lago”



Vejo seu fundo formado por algas

sulfurosas como o fundo do inferno,

algas que abraçam meus pecados.

Ainda os ouço, padres e demônios:

“Não. Um menino morreu neste lago,’



‘Por isso esse anjo, eterno ancorado

em seu centro, apontando os rumos.

Vela, velará por suas almas”, diziam,

“ou anjos caídos ressurgirão da lama,

não no centro do lago, mas da noite”.



Ah, malditas madrugadas de pânico,

culpa cultivada; quero e não posso,

e não devo ainda mergulhar no lago,

fundo formado por algas e pântano,

num lento e lúgubre balé de culpas.



Aqueles medos que se prenderam

a meus pés para sempre, e hoje

me enredam e prendem ao fundo

da imobilidade, ao mesmo medo

que tenho do mergulho no mundo



Agora, porém, saberei projetar-me

na água turva de reflexos fugazes

e fugidios do que encontrei aqui:

paisagem das vozes e cicatrizes

da geografia esquecida de mim.



Olho no fundo do barro do tempo

minhas imagens várias refletidas,

é preciso precipitar-me no opaco

deste lago para ver-me um pouco,

corrigir as distorções difusas da luz



Remota de um anjo que jamais soube

ver como redenção, me protegendo

com zelo dos pecados que não tinha,

e por isso inventei alguns vida afora,

os que ainda posso reinvento agora



Reinvento diuturnamente esta vida

que não queriam para mim, talvez

nem mesmo eu a quisesse assim:

essa comédia sempre silenciosa

da minha solidão sem saudades.



Anjos, arcanjos, não me perdoarão

ou mesmo essa legião de demônios,

nenhum jamais vi como redenção,

todos eram mais tragédia que luz:

um menino meio às algas do lago.



Não era para isso a lavoura divina,

ó anjo diuturno que me extermina?



II



Era eu o menino ao lado do anjo,

no destino da imobilidade, papel

secundário de uma pureza interdita,

preso na lama afogado em algas

uma alma precocemente perdida.



Delicado, me retiraria das águas

no colo materno de anjo levaria

meu corpo pelos ares ao colo

de minha mãe, que num gesto

mudo e terno choraria mágoas



Do nosso amor amorto (palavra

que eu recriaria no nada amorfo

e incréu onde eu viveria), seu leite

amamentando a memória de mãe.

Meus dentes cravados nos seios



Secretam a mistura de sangue e leite

da Pietá de minha fome mais secreta



III



E se ainda não tenho a coragem

do lago, venha a vertigem, veredas,

rumos úmidos do húmus de mim.

Posso pisar os ossos do passado

posto a nu numa nuvem de folhas.



Tento não tropeçar nos escombros

da memória no medo das sombras

das ruínas desprendidas, labirintos

onde repousavam os ritos do Mal.

Os ritos ocultos do corpo libertino



E descoberto: O pelo nas mãos!

Denunciava as minhas oferendas,

ritos no altar de Onã: a serpente

a personificação do mal, mulher

a única encarnação da serpente



Despida na escamação das cobras

com suas cores mutantes e formas

inconclusas, as vulvas devoradoras

de falos, vulcões, quem nos salvaria?

Sacrifício, sacramentos. A luz do dia?



Encoberto por Hélio, um deus pagão,

Eros me beatificara em sonhos e sol.

Silêncio sol, zela pelo silêncio do anjo.

Não revela os segredos fesceninos

da cumplicidade insone de meninos.



Pois o dia sempre virá, trazendo a lua

nua entre as algas, agora calmas de luz.



IV



Já não me protejo de quem fui

e me projeto no lago, nada mais

me serve o anjo senão a certeza

de que ele nunca teve asas reais,

mas braços estáticos que acenam



Adeus. As algas puxam para o fundo

e para além de mim, me envolvem

enfim no que fui, sou e serei: o fundo

do lago. Me debato nas correntezas

do tempo, nos valões do redemunho,



Tudo que fui morrerá comigo, lago

tornado rio e feroz cabeça d’água

arrastando meu corpo com as almas

turbilhão de pecados, preces, algas,

palavras e tantos poemas perdidos



Estou órfão de mim, do colo materno,

por isso o anjo não sabe o que fazer

do meu corpo e esta alma perdida.

Estou órfão, um homem sem infância

arrastado ao fundo de águas infames



Por isso, o anjo não sabe quem velará

pelo meu corpo sem colo e sem Deus,

sem esperança de um passado, adeus

de um homem irremediavelmente só

vendo seu corpo de menino no fundo



Da solidão desse território de mortos,

dos que não cremos, solidão da poesia,

do verso escrito num tempo de surdos,

este tempo dos lagos sujos e turvos,

e minha palavra impossível e inaudita.



V



Como nadar no terror destes dias

que tecem o meu tempo presente,

que me priva da palavra possível

e pressente entre algas uma fábula

sem memória que me arrasta vivo



Para além dos mortos? Desaprendi

a nadar na infância no lago, a alma

que insistiam em me dar revoltou-se

tornou-se espírito, por isso esse anjo,

demônio cego, não desistiu de mim.



Ronda à minha volta, se parte de dia,

de noite volta assombrando o poema,

em cada dobra de sangue do poente.

E assim, anjo ou homem, ele morrerá,

morto para sempre em mim, a morte



Oculta e eterna e diariamente repetida,

minha morte no fundo do lago refletida.



VI



Já não me protejo, me projeto no lago,

não mais temo esse anjo pela certeza:

ele nunca teve asas reais, mas braços

estáticos que acenam adeus. As algas

puxam para o fundo, para além de mim,



Debato-me nos redemunhos, valões

do tempo me envolvem, mas recuso

meu destino de ser eu o lodo de mim,

não serei o fundo do lago, ou tudo

que serei morrerá comigo. Súbito,



Lembro num dia de inverno, no longe

entre as montanhas que ainda hoje

tatuam a floração diária das manhãs,

o recompus transitivo, verso a verso,

o verbo que os homens desconjugaram.



Numa construção lírica, eu vi brotar,

palavra por palavra, uma rima tardia

para o verbo amar. E vi surgir do vale

do seu ventre outro verbo que venceria

muito mais que este lodo imaginário



Era um mar real e amniótico. Úmido

ainda de sal e placenta e sangue

eu o vi emergir, o enigma da vida,

me ensinando a nadar com fúria,

na afetuosa cólera de sermos mar.



Cansados (ele não), nos deitamos,

sol possível na tormenta humana,

nas margens que ninguém profana,

as margens de nós três, rio e porto

mar alto e continente num só corpo



Tiramos com calma algas e a lama

dos corpos mútuos, uma a uma,

gesto mudo de paciência e precisão

de quem vê tecer sua teia e ignora

a cruel máquina do tear das horas



Aproximando-me da borda da morte.

Mas tudo é vida em volta, úmidos

de nós, descansamos nas margens

desse lago ora reduzido à memória,

e acalentamos os corpos afluentes



Nos braços da simplicidade meridiana,

na solar delicadeza da vida cotidiana